A luz não se anuncia. Ela simplesmente acontece. Nas frestas da janela, no intervalo entre uma palavra e outra, no instante em que a pálpebra hesita. Luz é matéria de instante. Dura o que dura um sopro. Mas sua lembrança insiste, como um eco na retina.
Há uma geometria na luz da manhã que a tarde desconhece; a luz da tarde é mais oblíqua, mais generosa com as sombras. Ela se debruça sobre os objetos, inventando contornos e relevos que a luz dura do meio-dia apaga.
No escuro do quarto, antes de dormir, a luz do abajur inventa um mundo pequeno e seguro. É ali que os livros se abrem e as histórias ganham vida. A luz, nesse instante, é cúmplice do silêncio. Ela não ilumina para revelar, ilumina para acolher.
Dizem que a luz é onda e partícula. Talvez seja também memória. Há luzes que guardamos na retina — o clarão de um relâmpago na infância, o reflexo do sol no mar, a chama vacilante de uma vela numa noite de vento. Essas luzes não se apagam. Elas vivem num lugar entre o olho e o pensamento.
Luz é verbo. Luzir. Alumiar. Clarear. Cada palavra carrega um pedaço de dia. Quando a luz se vai, fica a saudade dela, uma espécie de ausência dourada que a gente aprende a habitar.
Talvez a luz seja o que somos quando estamos inteiros. Um fio tênue entre o que vemos e o que somos. Um intervalo de brilho antes que a noite, outra vez, nos envolva.
A luz do fim da tarde é a mais sábia. Ela sabe que vai embora, mas fica o máximo que pode. Estica-se nos muros, doura as folhas das árvores, inventa sombras compridas que parecem dedos apontando para o horizonte. É a hora em que o mundo parece suspenso, um suspiro coletivo antes do sono.
Quando a luz se apaga, o silêncio fica mais espesso. Mas a gente sabe que ela volta. Todas as manhãs, a luz renova o pacto com o mundo. E a gente, mesmo sem merecer, ganha mais um dia de claridade.