Olaf

Ele chegou sem aviso. Não havia telegrama, nem carta. Simplesmente apareceu na porta da pequena livraria-café, com um caderno surrado e um olhar que parecia guardar séculos. Pediu um café preto, sem açúcar, e sentou-se na mesa do canto. Desde então, tornou-se presença constante.

Os frequentadores se acostumaram com sua figura: um homem alto, de cabelos grisalhos desalinhados, que escrevia sem parar. Ora com caneta-tinteiro, ora a lápis. Ninguém jamais leu o que escrevia. Diziam que era um romance sobre as estações do ano. Outros apostavam em um diário de viagens imaginárias. Mas Olaf mantinha o mistério, e o mistério fazia parte do charme daquele café literário.

Certa tarde, uma menina se aproximou. — O que você escreve? — perguntou. Olaf ergueu os olhos e, pela primeira vez, falou sobre si. — Escrevo sobre o tempo — disse. — Não o tempo do relógio, mas o tempo que se dobra sobre si mesmo. O tempo que vira cicatriz, que vira poesia. A menina não entendeu, mas guardou as palavras como quem guarda uma semente.

Os anos passaram. O café mudou de mãos, os livros nas prateleiras se renovaram, mas Olaf continuava lá, na mesma mesa, com o mesmo caderno. Até que um dia, ele não apareceu. A caderneta ficou sobre a mesa, com a caneta ainda cravada entre as páginas. A nova dona do café, respeitosa, não ousou folheá-la. Colocou o caderno em uma gaveta, junto com outros objetos esquecidos.

Muito tempo depois, um jovem escritor encontrou o caderno em um almoço de desapego. Leu a primeira linha: "Olaf é o nome que dei ao silêncio que me habita. É o amigo que inventei para não estar só." E continuou lendo, fascinado. Era um longo poema em prosa sobre as coisas que não se dizem, sobre as cartas que nunca foram enviadas, sobre os cafés que esfriaram enquanto o mundo girava.

O jovem escritor copiou o poema, devolveu o caderno à gaveta e, anos depois, publicou-o sob o título "Olaf". Dizia que era um encontro casual, uma tradução do silêncio. A crítica literária elogiou a delicadeza da obra. Ninguém soube que o verdadeiro autor era um estranho de cabelos grisalhos.

E é por isso que esta página existe: para que o eco de Olaf continue a ressoar entre xícaras e palavras. Porque há histórias que precisam ser contadas, mesmo que a origem se perca na névoa do tempo. Como o café que aquece as mãos em uma manhã fria, o texto de Olaf aquece a alma — e convida o leitor a ouvir o próprio silêncio.