Agora

O agora tem gosto de café fresco passado na hora. A xícara esquenta as mãos enquanto o relógio na parede insiste em marcar um tempo que não existe — porque o agora não se mede em minutos.

Na borda da caneca, uma mancha de batom quase apagada. Memória de um beijo que ainda está por vir, ou que já aconteceu e se desfez como a espuma do leite. Agora é o instante em que tudo pode ser reescrito: a palavra que vacila, o verso que se recusa a caber no papel.

“O agora é a pausa entre o suspiro e a palavra.”
— Do diário de uma manhã qualquer

As horas fogem, mas o agora fica. Na literatura, no cinema, no olhar que se cruza com o de um estranho no ponto de ônibus. Escrever sobre o agora é tentar agarrar a fumaça do cigarro antes que ela se dissipe no ar. A escrita cafeína sabe disso: cada texto é um fio que tece o presente, mesmo quando fala do passado.

O que resta do agora quando a noite chega? Talvez apenas a certeza de que ele esteve aqui, vivo, latejando como uma brasa no fundo da alma. E que amanhã haverá um novo agora, esperando para ser vivido e contado.

Enquanto o café esfria, o agora se renova. E a escrita, teimosa, insiste em registrar o que já não é mais.