Há um lugar no Rio onde o mar parece falar mais alto que a cidade. O Arpoador, com suas pedras escuras e ondas quebrando em espuma, sempre foi para mim um ponto de encontro entre o possível e o impossível. Não sei dizer quantas vezes estive ali, mas cada visita guarda uma textura diferente na memória.
Na tarde que escolhi para escrever, o vento soprava forte, trazendo cheiro de maresia e umidade. Sentei sobre a rocha mais plana, aquela que forma uma espécie de banco natural, e fiquei observando os surfistas que desafiavam as séries. Havia algo de hipnótico na repetição dos movimentos: remar, esperar, levantar, deslizar, cair. Talvez a vida seja isso, um constante cair e levantar diante das ondas que insistem em nos derrubar.
Lembrei de uma conversa com minha avó, que dizia que o mar é o único lugar onde o tempo se dissolve. "Olhe para o horizonte", ela falava, "e você verá que o amanhã já está ali, mas também o ontem". No Arpoador, essa sensação é ainda mais forte. Talvez porque a pedra seja antiga, milhões de anos, e nós, meros instantes.
Senti um toque no ombro. Era uma menina, de uns oito anos, segurando um balde cheio de conchinhas. "Moça, quer ver o que eu achei?" Mostrou uma concha perfeita, em forma de espiral, cor de madrepérola. Peguei na mão e ela sorriu. "É um caracol do mar. Se você encostar no ouvido, escuta a saudade." Ri. E ela completou: "É o que minha mãe diz." Fiquei com a concha por um instante, imaginando que história aquele pequeno objeto carregava.
O tempo passou rápido. O sol começou a descer, pintando a Pedra do Arpoador de tons laranja e rosa. As pessoas começaram a se reunir para ver o pôr do sol, ritual carioca que nunca cansa. Ouvi trechos de conversas: um casal discutia sobre o jantar, uns jovens planejavam a noite, um senhor fotografava o céu com uma câmera antiga. Cada um com sua história, todas se encontrando ali, na beira do mundo.
Antes de ir embora, escrevi na areia, com o dedo, a data e a primeira frase de um poema que jamais terminarei. A onda seguinte apagou tudo. E está tudo bem.