Caminhada

Há caminhos que se abrem diante de nós sem aviso. Hoje, ao sair de casa, não planejei um destino. Queria apenas sentir o ar da manhã, deixar que os pés escolhessem a direção. Fui seguindo a calçada que ladeia o rio, onde as árvores formam um túnel verde. O som da água era um fundo constante, misturado ao canto dos passarinhos.

No meio do percurso, encontrei um banco de madeira meio escondido. Sentei por alguns minutos. Observei uma folha que caía em espiral, como se dançasse. Nada acontecia de importante, e era exatamente isso que tornava a manhã especial. A vida, pensei, é feita dessas pequenas coreografias invisíveis.

Lembrei de um verso de Manoel de Barros: "O caminho é a metade do chão". Talvez o caminhar não seja apenas um meio de ir de um lugar a outro, mas uma forma de habitar o mundo. Cada passo firma um acordo com a terra, cada respiração se mistura ao ar. Hesitei entre seguir reto ou atravessar a ponte. Escolhi a ponte, porque o rio embaixo prometia uma perspectiva diferente. Lá de cima, vi a cidade se espreguiçando, as casas ainda sonolentas.

Mais adiante, parei para ver um gato que descansava em cima de um muro, os olhos semicerrados. Ele me fitou com a indiferença dos seres que já conhecem o segredo da paciência. Por um instante, fui também um pouco gato, um pouco muro, um pouco manhã.

Continuei andando. O sol começou a esquentar, e as ruas foram ganhando movimento. Pessoas passavam apressadas, cada uma com sua história silenciosa. Voltei para casa sem pressa, carregando comigo a sensação de que caminhar é um ato de resistência ao ruído do mundo.

Quando cheguei, anotei estas palavras. Para não esquecer que o caminho, por vezes, é mais importante que a chegada.