Desfragmentos de mim

Somos feitos de fragmentos. Não de uma peça única e coesa, mas de estilhaços de memórias, de palavras soltas, de amores que ficaram pela metade. Andamos por aí juntando cacos, tentando montar um quebra-cabeça cuja imagem original talvez nunca tenhamos conhecido.

Há dias em que me sinto uma coleção de restos. Um pedaço de infância enterrado no quintal da casa velha, um riso partilhado num ônibus qualquer, o cheiro de café que nunca mais se repetiu. Cada fragmento carrega uma cor, um tom, uma textura que não se encaixa perfeitamente no outro, mas que juntos formam a paisagem estranha e familiar de quem sou.

Talvez a vida seja isso: perder-se para se encontrar nos pedaços.

Escrevo para juntar as pontas. As palavras são o fio que costura os retalhos. Quando escrevo, não estou criando algo novo; estou reorganizando os escombros, dando nome aos cacos, permitindo que o mosaico ganhe forma ainda que provisória. Cada texto é uma tentativa de capturar um fragmento antes que ele se desfaça no esquecimento.

Há fragmentos que doem. Pontas de vidro que cortam quando tocadas. Lembranças que insistem em voltar sem avisar, como um caco enterrado na sola do pé. Mas há também fragmentos leves, quase etéreos, que flutuam como plumas – um sorriso bobo, uma música que tocou na hora certa, o abraço que durou um segundo a mais.

Não quero juntar todos os pedaços para formar uma figura inteira. Não acredito mais na totalidade. Prefiro o mosaico, a colagem, a montagem que mostra as emendas, que não esconde as fraturas. Sou uma colcha de retalhos, e cada remendo conta uma história.

O que fica nos vãos

Os vãos entre os fragmentos também são importantes. São os espaços vazios, as pausas, o que não foi dito. Eles guardam o mistério, o que ainda pode ser. Não preciso preencher todas as lacunas; algumas são morada do silêncio, e o silêncio também fala.

Nesta manhã de outono, sentada diante de uma xícara que esfria, olho para os fragmentos espalhados sobre a mesa: um bilhete antigo, uma fotografia com os cantos dobrados, uma folha seca que trouxe do parque. Não há pressa em organizá-los. Eles são o mapa do que vivi, do que perdi, do que ainda busco.

Desfragmentar-me é aceitar que não sou uma, mas muitas. Que cada pedaço tem seu lugar, mesmo que eu ainda não saiba qual. É confiar que, aos poucos, o desenho se revela – não como um todo definitivo, mas como uma obra sempre em processo, sempre aberta.

“Sou o que posso ser, enquanto junto os cacos do que fui.”

E sigo. Catando fragmentos, escrevendo sobre eles, deixando que o vento leve alguns e que outros se fixem na pele. Desfragmentos de mim – uma coleção em andamento, um arquivo aberto, um poema que nunca termina.