Há uma arquitetura no ato de desmoronar. Não a arquitetura dos edifícios que ruem sob o peso do tempo, mas a dos corpos que se deixam cair para dentro, para o lugar onde as palavras já não seguram as vigas. Desmorono é um verbo que se conjuga no silêncio, na solidão de quem assiste ao próprio declínio sem oferecer resistência – ou oferecendo apenas a resistência poética de nomear o que desaba.
Este texto não é um ensaio sobre a ruína, mas uma meditação sobre a beleza do que se desfaz. A literatura sempre soube que o desmoronamento é também um começo: das cinzas, do pó, do vazio que resta, algo pode germinar. Os grandes poetas – de Manuel de Barros a Adélia Prado – cantaram o desmoronar como condição criativa, como possibilidade de reconstruir sobre escombros.
O que significa desmoronar?
Desmoronar é perder a forma. É deixar que as camadas que construímos – as identidades, as certezas, os papéis que representamos – se quebrem uma a uma. Na sociedade contemporânea, onde a performance da solidez é quase uma obsessão, confessar que se desmorona é um ato de coragem. Ou de cansaço.
A poesia do desmoronamento habita os interstícios: o crack no chão, a palavra não dita, o gesto que se interrompe. Desmorono, então, pode ser o grito de quem já não sustenta a fachada. Pode ser a aceitação de que a vida é feita de ciclos de construção e queda, e que cada queda prepara o chão para algo novo.
Desmorono na escrita literária
Na Literatura, o desmoronar é figura frequente. Autoras como Carolina Maria de Jesus e Sandra Godinho escreveram a partir dos escombros, transformando a dor e a precariedade em matéria de arte. Desmoronar, nesse sentido, não é fracassar: é desapegar-se da ilusão da permanência para abraçar a fluidez do ser.
“Desmorono em pedaços que ninguém vê / como a casa velha que ninguém habita.”
— (poema hipotético, mas que poderia existir nos cadernos de qualquer poeta que habita as bordas.)
A textura do desmoronamento
Há desmoronamentos súbitos, como o colapso de uma ponte; há outros lentos, como a erosão de uma falésia. O desmoronamento de que falo é o segundo: o processo silencioso em que o sujeito se desfaz quase sem perceber, até que um dia olha para si e vê apenas um monte de fragmentos. É aí que a escrita pode entrar, como cimento poético que junta os cacos sem apagar as fissuras.
O Expresso do Dia já publicou textos sobre a fragilidade do cotidiano. O Chafé já refletiu sobre a dureza da crítica social. Mas talvez seja no Cappuccino Pequeno, o espaço dos poemas, que o desmoronamento encontre sua forma mais natural: o poema é gênero que respira por entre as rachaduras.
Conclusão: o desmoronar como método
Desmoronar, no fim, pode ser um método de reinvenção. A cada peça que cai, o chão se reorganiza. O que parece perda é, muitas vezes, preparação. Desmorono, então, é uma declaração de rendição ao movimento da vida, que não para de transformar o sólido em pó e o pó em matéria de sonho.
Que este texto seja um convite a olhar os próprios escombros com olhos de poeta. Porque desmoronar, quando bem vivido, é também uma forma de construir.