O que é uma estafa? Para mim, não é apenas o golpe financeiro, a mentira calculada que nos tira algo material. A estafa que me assombra é mais sutil, mais silenciosa. É a promessa não cumprida, o olhar que desvia, o sorriso vazio. É a sensação de ter sido roubado de algo que nem sabia que possuía: a confiança.
A estafa do cotidiano
Crescemos ouvindo que o mundo é um lugar de oportunidades, que o trabalho duro compensa, que o amor verdadeiro vence. E, de repente, nos damos conta de que fomos estafados. Não por um indivíduo mal-intencionado, mas pelo próprio sistema, pelas narrativas que nos venderam desde pequenos.
A pandemia escancarou muitas estafas. A estafa da normalidade, da segurança, da previsibilidade. Fomos obrigados a encarar que a estabilidade que pensávamos ter era, na verdade, um castelo de cartas. As instituições que deveriam nos proteger vacilaram. As certezas se desfizeram como fumaça.
A estafa das redes sociais
E há a estafa das redes sociais. Vendem-nos a ideia de que a vida é um espetáculo, que precisamos performar felicidade o tempo todo. Cada postagem é um palco, e a plateia, invisível, julga e é julgada. Mas onde fica a verdade nisso tudo? Fomos estafados pela ilusão de conexão. Temos centenas de amigos virtuais e uma solidão que aperta o peito.
Estafa na cultura brasileira
A cultura brasileira, com sua história de promessas não cumpridas e desigualdades estruturais, é um terreno fértil para pensarmos a estafa. Quantas vezes nos venderam a ideia de um país do futuro que nunca chega? A literatura de denúncia, como a de Carolina Maria de Jesus, expõe essa estafa cotidiana com uma crueza que dispensa floreios. É a estafa da fome, da falta de moradia, da invisibilidade social.
O antídoto possível
A literatura, talvez, seja o antídoto contra essa estafa generalizada. Não porque ofereça respostas fáceis, mas porque nos ensina a desconfiar das verdades absolutas. Um bom texto não nos vende uma ilusão; ele nos confronta com a complexidade do real. A poesia, em especial, desnuda a linguagem, mostra suas costuras e seus truques. Ela nos lembra que as palavras podem construir mundos, mas também podem enganar.
Reconhecer a estafa é despertar
Reconhecer a estafa é doloroso, mas é também um despertar. É perceber que fomos ingênuos, mas não tolos. É entender que a única saída não é a descrença total, mas uma vigilância amorosa. Desconfiar das promessas fáceis, dos discursos prontos, das imagens editadas.
Talvez a verdadeira estafa seja acreditar que existe um sentido único, uma resposta definitiva. A vida não nos deve nada. A beleza está justamente em criar o nosso próprio significado, mesmo sabendo que, a qualquer momento, podemos ser estafados de novo. É aí que reside a nossa pequena, teimosa resistência.