Alguns dias atrás comecei a catalogar livros que fazem parte da minha estante. Falo isso porque grande parte, a grande maioria, consiste em livros técnicos da minha área, da área do meu marido e livros de colorir.
Eis que ao iniciar essa catalogação, me dei conta da falta que sinto de uma biblioteca, não a de Catalão (cidade ondem moro atualmente) onde as estantes são bagunçadas e na qual os funcionários são mal educados ( uma exceção no máximo ), mas da antológica e inesquecível Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, a querida Biblioteca de Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.
Comecei a refletir sobre toda a minha trajetória enquanto leitora, literária, escritora — e também sobre a minha relação com os livros.
A conclusão é que, sim, eu me perdi de mim.
Sim, a pandemia agravou. Mas a verdade é que o processo começou antes.
Sei que em algum lugar, num passado muito distante, existe alguém que lia cinco livros em uma semana. Sim, cinco, e ainda lia contos e escrevia resenhas para postar em grupo literário no Facebook.
Li, dos 15 aos 20 anos uma média de três a cinco livros por semana, e pasmem: lia textos de filosofia, lia romance, lia poesia, lia contos, lia tudo que estivesse ao meu alcance. Não, não trabalhava fora nem estudava (não entrei para a faculdade aos 17 - somente aos 20) e tinha tempo o suficiente para mergulhar nas páginas de uma obra.
Porém, depois de adulta, trabalhando e estudando, manter uma média de 3 a 5 livros mensais virou uma verdadeira epopeia, principalmente porque me recuso a deixar de dormir para ler. Sono também é prioridade.
E em um belo dia, durante essa bendita catalogação, percebi que tem muitos livros, inclusive, que não li, e que tenho mania de comprar ( ou ganhar) livros. Amo aquela sensação de abrir um livro novo, de sentir o cheiro. Mas, a verdade é que nunca mais poderei comprar todos os livros que quero, pois preciso equilibrar gastos de família e também não tenho mais espaço para livros - e os que tenho estão amontoados.
E aqui faço uma reflexão, que talvez não caiba a mim, talvez não seja o lugar de fala: como anda o acesso ao livro, à leitura, à literatura em nosso país após o desmonte da cultura? Ao iniciar essa discussão, uma voz ecoa na minha mente: 'você está romantizando uma biblioteca sendo que você tem acesso e condições de obter livros, apesar de não ter lido todos.' Retruco: não estou romantizando, estou desabafando. Acredito que a biblioteca, principalmente a pública, é um espaço múltiplo. Um espaço onde a leitura se torna democrática. Eu cresci frequentando bibliotecas: Biblioteca Infantil e depois a Biblioteca Pública de Belo Horizonte. E, sim, elas formaram a leitora que sou. Acredito que todos deveriam ter o direito de frequentar uma biblioteca onde não sejam tratados com desdém pelos funcionários, onde possam folhear um livro, onde sejam livres para escolher. Acredito no poder do espaço.
Hoje conto com um plus imenso: pertenço a um clube de assinaturas (Tag Livros) que me permite todo mês desfrutar de uma leitura nova e que me tirou de uma ressaca literária de quatro meses. E passei a comprar livros em sebos online, o que é uma faca de dois gumes: você passa horas, dias, semanas procurando títulos e é muito bom quando se depara com aquele livro inesquecível, mas com o preço de um hot dog.
Finalizo com o seguinte: não desista de si, da leitura, não desista de você. Foque no que te faz bem. Encontre o seu tempo e se perceba. Se redescubra.
E, por fim, mas não menos importante: estou disposta a me reconhecer depois que tudo isso acabar. Você também está?