Impasse

O impasse chega sem aviso. Não toca a campainha, não anuncia a visita. Simplesmente se instala na sala de estar da alma, ocupa o sofá, põe os pés sobre a mesa e cruza os braços. O impasse é um hóspede indesejado que se recusa a ir embora.

Na literatura, chamamos de conflito. Na vida, chamamos de dúvida. Na escrita, é o cursor que pisca numa tela em branco por minutos, horas, dias. É o verso que não fecha, a rima que não encaixa, a palavra que se esconde no dicionário como quem brinca de esconde-esconde.

O impasse não é uma parede, é um labirinto sem centro. Andamos em círculos, esbarramos nas nossas próprias certezas, e descobrimos que o único caminho é o que ainda não foi trilhado.

Há quem diga que o impasse é um presente disfarçado. Uma pausa forçada no turbilhão da rotina. Um convite para olhar para dentro e reorganizar as gavetas da memória. Quantas cartas não foram escritas num impasse? Quantas decisões não foram tomadas depois de uma longa tarde de imobilidade?

O poeta sabe que o impasse é o útero da criação. É o espaço entre o fim de um ciclo e o começo de outro. É a respiração antes do mergulho profundo. No silêncio do impasse, a gente ouve o que a agitação do dia a dia não deixa ouvir: a própria voz interior.

Escrever sobre o impasse é uma forma de rompê-lo. É pegar o labirinto pelos fios e transformá-lo num novelo. É dar nome ao medo para tirar-lhe o poder. A página em branco deixa de ser um campo de batalha e passa a ser um jardim de possibilidades.

O movimento é a chave. Um passo, mesmo que vacilante, desfaz a paralisia. Uma palavra, mesmo que imperfeita, quebra o silêncio. O impasse se desfaz no ato. É na tentativa que encontramos o acerto, é no erro que descobrimos o novo caminho.

Como escreveu Anne Sexton, "a coragem de escrever é a coragem de se sentar e se deixar escrever". O impasse exige essa entrega. A coragem de não saber, a humildade de esperar, a confiança de que a palavra virá.

O impasse não é o fim da história. É o clímax. É o momento em que o protagonista precisa fazer uma escolha. E toda boa história depende dessa escolha para seguir em frente. O impasse é o ponto de virada, e não o ponto final.

Que venham os impasses, então. Que eles nos encontrem com a caneta na mão e o coração aberto. Porque no fim das contas, o impasse não é sobre ficar parado. É sobre se preparar para o próximo salto.