De repente, uma febre me deu
Acordei com uma história pra contar
Não era qualquer história...
Era sobre acordar todos os dias num quarto escuro
esquecer que a luz existe,
perder o paladar para o gosto bom da comida,
perder o tato para pele alheia
e não lembrar mais de como se ama
Pessoas sem história se acostumam com isso
— e se acostumar é a morte do verbo —
e por isso a febre me deu
Noites mal dormidas. Dias mal vividos.
Porém, meu corpo, minha história, quem diria?
— e o menino descobriu o amor no cinema
e a menina se descobriu na arte —
e quando a febre baixou,
pude escrever sobre dores sentidas a esmo...
Surgiu a poesia, gritou bem alto
Eu quis escrever e escrevi
E no resto do tempo, sorri
In-quietudes, eu sei, mas não me detenho
Porque é preciso transbordar
Vandia Leal