Minha aurora (Mari Oliveira)

Neste poema, Mari Oliveira captura a delicadeza do amanhecer e a intimidade dos rituais que precedem o dia. A aurora é mais do que luz: é um espaço de silêncio, expectativa e renascimento.

O sol se levanta devagar,
como quem não quer assustar os sonhos.
O dia se abre em frestas,
luzes primeiras sobre o orvalho.

Há um silêncio que ainda é madrugada,
um sopro que não quer virar palavra.
O vento entre as cortinas
traz o cheiro do café que ainda não fiz.

Minha aurora é feita de pequenas esperas:
a xícara que aquece a mão,
o primeiro gole que me devolve ao mundo,
o instante em que o tempo ainda é meu.

Há poesia no vapor que sobe,
no pó que se dissolve em água quente.
Cada manhã é um começo em fio,
uma folha em branco que o sol preenche.

Não preciso de alarmes.
A luz que invade a cozinha
já me diz que é hora de recomeçar.
A aurora não espera — mas me espera.