Há mulheres que nunca deixam de ser meninas. Não porque se recusam a crescer, mas porque sabem que crescer não significa abandonar a capacidade de se maravilhar, de perguntar, de recomeçar. A mulher-menina é aquela que, entre as responsabilidades do dia a dia, ainda encontra tempo para parar e observar as nuvens, para sentir o vento no rosto, para escrever um poema no guardanapo do café.
Ela carrega na bolsa um caderno com páginas amareladas, onde anota sonhos, medos, lembranças de infância. Quando o mundo exige seriedade, ela recolhe-se em seu mundo interior, onde a fantasia ainda é possível. Não se trata de imaturidade, mas de uma escolha consciente de preservar a chama da criatividade, a coragem de ser vulnerável, a honestidade de sentir sem filtros.
A mulher-menina aprendeu cedo que a vida não é uma linha reta. Assim como as estações do ano, ela alterna entre momentos de colheita e de plantio. Há dias em que precisa ser forte, enfrentar tempestades, tomar decisões difíceis. Nesses dias, a menina dentro dela sussurra: "você já superou tantas coisas, vai superar mais essa". E a mulher ouve, confia, segue.
Nos textos do Escrita Cafeína, essa dualidade aparece como um fio condutor. Os poemas que publicamos na categoria Cappuccino Pequeno são um convite para que a mulher-menina se sente à mesa, tome seu café e se reconheça nas palavras. Não há julgamento, apenas acolhimento. Aqui, a fragilidade não é fraqueza; é a matéria-prima da poesia.
Lembro-me de Dandara, de Marielle, de Anita — mulheres que, mesmo diante da dureza do mundo, não perderam a capacidade de sonhar com justiça, de lutar com a doçura de quem acredita que outro mundo é possível. Elas foram, cada uma a seu modo, mulher-menina. A menina que brincava de ser heroína e a mulher que se tornou heroína real. A menina que escrevia cartas para o futuro e a mulher que construiu o futuro com as próprias mãos.
Ser mulher-menina é um ato de resistência. Em uma sociedade que exige que amadureçamos rápido demais, que deixemos de lado os sonhos infantis em nome da produtividade, preservar a criança interior é um gesto revolucionário. É lembrar que a vida não é apenas dever, mas também poesia. Não é apenas trabalho, mas também brincadeira. Não é apenas seriedade, mas também o riso solto de uma tarde de outono.
No fundo, todas nós carregamos essa multiplicidade. A mulher que cozinha, que trabalha, que cuida, que ama, que se indigna — e a menina que ainda acredita em contos de fadas, que dança na chuva, que sente o coração bater mais forte ao ouvir uma canção. Não precisamos negar nenhuma delas. Podemos habitar o entre-lugar, onde as duas coexistem em harmonia.
Convido você a explorar outros textos que também celebram essa complexidade. O Escrita Cafeína é um espaço de encontro entre o que fomos e o que podemos ser. Entre a mulher que lê e a menina que escreve nas margens do caderno. Entre o café amargo da realidade e o açúcar dos sonhos. Que a mulher-menina que existe em você encontre aqui um lar.