“Não sou um cara muito de festa, de balada, de bebedeira e de farra. Até gosto de sair, de me divertir, mas de forma moderada e com qualidade. Uma coisa que gosto de fazer e tenho feito nos últimos anos é me dedicar a pequenos projetos… corte, lixar, colar, soldar, marcar, cozinhar, assar, fritar: tudo é um exercício de paciência e uma oportunidade de compreender a alma das coisas.”
Quando penso em corte, penso em machado, faca, bisturi, canivete, lâmina, tesoura, estilete, serra elétrica, foice e martelo. O gesto de cortar é um gesto de poder, de decisão, de transformação. Cortar é separar, é definir um limite, é criar uma borda, um começo e um fim. Cortar é uma arte.
O corte é também um ato de violência. Cortar algo é ferir, é romper, é quebrar. Mas também pode ser um ato de cura: cortar o que está doente, cortar o que não serve mais, cortar para permitir o crescimento. Na cozinha, cortar legumes é preparar o alimento. Na medicina, cortar é salvar vidas. Na arte, cortar é criar forma.
Cortar é um gesto que exige coragem. É preciso olhar para o objeto, para a relação, para o hábito, e decidir que ali termina algo. É um ato de responsabilidade. Cortar o cabelo, cortar uma relação, cortar o mal pela raiz. Cada corte carrega uma história, uma intenção, uma consequência.
Talvez por isso eu goste tanto de cozinhar. Cada ingrediente que corto é uma pequena cerimônia. A faca desliza, a tábua range, os pedaços se separam. Há uma beleza nesse gesto simples, quase primitivo. O corte é um lembrete de que nada é contínuo, de que tudo pode ser transformado.