Sinto muito (Yuri Nunes)

“Sinto muito” — duas palavras tão pequenas, mas que carregam o peso de mundos inteiros. Dizer “sinto muito” é mais que um pedido de desculpas; é um ato de coragem, uma exposição da alma.

Yuri, quando nos conhecemos, nunca imaginei que um dia estaria aqui, escrevendo este texto para você. A amizade que construímos ao longo dos anos foi feita de risos, silêncios compartilhados, livros emprestados e inúmeras xícaras de café. Lembro especialmente daquele dia chuvoso em que ficamos horas conversando sobre Grande Sertão: Veredas e você me disse que a literatura era a nossa forma de resistir.

Foi por isso que, quando aconteceu o que aconteceu, o silêncio doeu tanto. As palavras que não foram ditas criaram um abismo entre nós. Eu poderia ter dito “sinto muito” naquele momento, mas o orgulho falou mais alto. Deixei que o tempo passasse, achando que ele curaria tudo. Mas o tempo não cura silêncios; apenas os enterra mais fundo.

O peso das palavras

Sempre acreditei que as palavras têm poder. Elas podem construir ou destruir, aproximar ou afastar. No nosso caso, algumas palavras ditas sem pensar criaram um fosso. Mas também acredito no poder transformador do perdão. Como disse um escritor que admiramos: “O perdão é o ato mais elevado da imaginação humana.”

Não estou pedindo que você esqueça, apenas que considere a possibilidade de recomeçar. Recomeçar não significa apagar o passado, mas construir um futuro diferente. Assim como um só gole de café não define o sabor de toda a xícara, uma falha não define o que somos.

Há algumas semanas, reli A descoberta do mundo, de Clarice Lispector, e encontrei um trecho que dizia: “Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento.” Talvez seja isso: não preciso entender exatamente onde erramos. Sinto que errei, e isso já basta para pedir desculpas.

O gesto de escrever

Escrevo este texto porque acredito que a escrita pode atravessar muros que a fala não consegue. As palavras escritas permanecem, permitem que o outro as leia no seu tempo, no seu ritmo. E eu quero que você leia isso com calma, sabendo que cada frase foi pensada com carinho.

Yuri, sinto muito por ter deixado que o orgulho nos afastasse. Sinto muito por não ter dito o que sentia na hora certa. Sinto muito por cada momento que perdemos. A amizade que construímos é uma das coisas mais genuínas que já vivi, e não quero perdê-la por causa de um silêncio.

Espero que um dia possamos retomar nossos cafés e nossas conversas sobre literatura, cinema e a vida. Até lá, fica este texto como um primeiro passo.

Com afeto.