Há dias em que a morte parece mais próxima, uma sombra discreta que acompanha cada passo. Não a morte violenta ou repentina, mas aquela que se anuncia devagar, como uma tarde que se fecha sem alarde. Sobre morrer, aprendi que é menos sobre o fim e mais sobre o que fica suspenso: o cheiro do café pela manhã, a curva de uma palavra dita sem pressa, o silêncio que habita os gestos simples.
Falamos tão pouco sobre morrer. Como se nomear o inominável pudesse atraí-lo. Preferimos o ruído, a correria, a ilusão de que o tempo é infinito. Mas a morte não precisa de convite; ela chega quando a vida se completa, quando o ciclo se fecha de maneira natural, como as folhas que caem no outono e viram adubo para o novo.
Li uma vez que morrer é apenas mudar de casa. A imagem me pareceu consoladora, mas não exata. Mudar de casa implica levar pertences, recomeçar. A morte é despojamento total: não se leva nada, nem as memórias mais queridas. O que fica é o rastro do que se foi, a marca que se imprimiu nos outros.
Neste texto, mais que um lamento, quero um acolhimento. Sobre morrer, talvez o mais difícil seja aceitar que não controlamos o instante. A vida é uma xícara de café que se esfria nas mãos, e o último gole é sempre o mais amargo. Mas também é o que nos ensina a valorizar cada gole anterior.
Que possamos, enquanto aqui estivermos, escrever nossa passagem com leveza. Deixar palavras que aqueçam, gestos que fiquem, amor que transcenda. Sobre morrer, o essencial é que a vida, apesar de breve, valeu cada respiro.