Eu sobrevivi ao câncer. Mas o que fazer quando estar viva ainda dói? Quando o medo não passa mesmo depois que a doença foi embora? Os dias seguem uma rotina de exames e consultas que me lembram constantemente o que eu passei.
Foram diversas cirurgias, quimioterapias, sessões de radioterapia e remédios que fazem mal, mas que têm como objetivo me manter viva. Foram dois anos de tratamento. Dois anos? Apenas isso? Eu me pergunto depois de tudo que vivi se dois anos são suficientes para me recuperar de uma notícia tão devastadora.
A quimioterapia é um tratamento cruel, à base de veneno que além de matar as células do câncer, matam também as saudáveis. Meu corpo ficou fraco. Fiquei sem cabelos, palpebras, sobrancelhas, unhas, enfraqueci os dentes e tive feridas. Fiquei muito inchada (a tal da lua cheia), mas segui em frente.
Foram várias cirurgias. Sete, para ser exata. Após o diagnóstico em 2017, a primeira foi a retirada do tumor. E com a retirada tive que amputar a mama. É isso mesmo: amputar. Muitas pessoas preferem o termo “retirar a mama”, mas para mim não é retirada, é amputação. Amputaram uma parte de mim.
Mas eu sobrevivi.
Os médicos sempre dizem: “para o câncer não existe uma sentença de morte, existe uma sentença de vida”. O tratamento é cruel, mas para vencer o câncer é preciso passar por ele. Ao final, dizem que a sensação é de renascimento. Discordo. Pra mim, após o tratamento, a sensação foi de cansaço, mas também de alívio.
O medo de uma recidiva é uma sombra constante e a sombra do medo não me deixa esquecer o que passei. O medo não passa. Ao final, vencemos o câncer. Mas eu não posso esquecer as marcas que ele deixou. Cicatrizes, algumas visíveis e outras não. Aprendi a conviver com elas e a aceitar as novas formas do meu corpo.
Por fora, parece que está tudo bem, mas por dentro ainda dói. A doença traz uma fragilidade que não existia antes. Hoje, me sinto frágil, tenho medo de tudo, de qualquer tosse, qualquer dor, qualquer exame. Tudo me faz lembrar do câncer.
Mas eu sobrevivi. E essa é a parte mais difícil: sobreviver. Porque sobreviver não é apenas continuar vivo, é ter que lidar com as consequências de tudo o que aconteceu. É ter que aprender a viver de novo. É redescobrir quem eu sou depois de tudo. Porque a pessoa que eu era antes do câncer não existe mais. Ela morreu junto com o tumor.
Mas eu sobrevivi. E agora, preciso aprender a viver com essa nova pessoa. Uma pessoa mais forte? Talvez. Definitivamente mais consciente da fragilidade da vida. Mas também mais cansada. Sobreviver é um fardo pesado. Mas é o único caminho.
Eu sobrevivi ao câncer. Mas o câncer também sobreviveu em mim, nas memórias, nas cicatrizes, no medo. E todos os dias eu luto para que ele não me consuma novamente. Eu sobrevivo. Um dia de cada vez.
POR ALINE BISCHOFF