Sonho negro

No fundo do poço havia uma claridade que não era luz, era a lembrança de um sonho negro. O sono vinha pesado, como um manto de chumbo, e eu mergulhava nas águas escuras da madrugada. A cada noite o mesmo ritual: deitar o corpo, esperar o silêncio e deixar que a mente se desfizesse em imagens sem contorno.

O sonho negro não tem cor – é a ausência dela. É o não-lugar onde as memórias se dissolvem e os desejos perdem o nome. Lá dentro, o tempo não passa: ele simplesmente é. Uma eternidade líquida, viscosa, que envolve os pensamentos como algas grossas.

A escuridão não é vazia; é plena de tudo que não ousamos dizer.

Acordei com o gosto de café na boca. O sonho negro ainda latejava nas têmporas. Levantei, fui até a janela e vi o dia nascer cinzento. O mundo lá fora parecia também um sonho – mas um sonho pálido, esmaecido. Talvez o verdadeiro despertar seja aceitar que vivemos dentro de um sonho negro, e que a luz é apenas um intervalo breve entre duas noites.

Escrevo isto para não esquecer. Para fixar no papel aquilo que a noite me mostrou sem palavras. O sonho negro é um poema que nunca será escrito, mas que a gente sente na pele quando fecha os olhos.

E assim sigo, carregando dentro de mim esse poço escuro, sabendo que amanhã, ao deitar, ele me receberá outra vez – não como um pesadelo, mas como a casa mais antiga que existe.