Tempo I

O tempo é um grão de areia que escorre entre os dedos, silencioso e implacável. Há dias em que parece correr como um rio caudaloso; noutros, arrasta-se como garoa fina, teimando em não passar. Neste primeiro movimento, convido o leitor a pousar a xícara e observar o ponteiro dos segundos. Não há pressa.

O café esfria, a página se vira, e o instante presente já se foi. Lembro-me das manhãs em que o relógio parecia dançar — cada tiquetaque uma nota, cada hora uma estrofe. O mundo lá fora corria, mas dentro da cozinha, o cheiro do pó fresco e o vapor da água criavam uma bolha de eternidade. Era ali que o tempo ganhava corpo.

Devagar, o ponteiro gira,
a xícara se esvazia,
e o que resta é a lembrança
de um tempo que não volta mais.

Escrevo estas linhas enquanto a chuva tamborila no telhado. O relógio na parede marca as oito da noite, mas poderia ser qualquer hora. O tempo, quando bem vivido, perde a medida. Não importa se são minutos ou horas: o que fica é a textura do momento — o amargo do café, o silêncio entre as palavras, o calor das mãos em torno da caneca.

Talvez por isso os poetas insistam em cantar o tempo: porque ele é a matéria mais preciosa e mais fugidia. Cada segundo é um poema não escrito, uma chance de saborear o agora. Este texto é um convite a desacelerar, a perceber o tempo como ele é — não um inimigo a ser vencido, mas um companheiro de jornada.

Na pressa do cotidiano, esquecemos que o relógio não mede apenas horas, mas também pausas. O tempo do café é um tempo à parte: um intervalo sagrado entre uma tarefa e outra. Nele cabem reflexões, sonhos, pequenos devaneios. Cabem, acima de tudo, a presença e a atenção.

Que este "Tempo I" seja o primeiro de muitos movimentos. Uma série de instantes capturados em palavras, como grãos de café moídos na hora. Cada texto, uma xícara. Cada leitura, um gole.

Que o leitor encontre aqui um respiro. Um momento para existir, simplesmente.