Tormenta do mar

Mar revolto, seu cheiro me faz lembrar do meu pai. Ele quem me ensinou a pescar. Ficávamos noites a fio, no barco, na escuridão, esperando o peixe. Ele morreu afogado. Há dias o mar não me dá nada, nem um peixe. O corpo do meu pai também não devolveu. Faz hoje um ano que ele se foi. Toda noite eu venho aqui, nessa praia, nesse mesmo lugar, para sentir o cheiro do mar, para sentir o cheiro dele. Meu pai. Hoje, a lua está cheia e o mar está revolto. Ele me ensinou que a lua cheia é boa para pescar. Mas eu não estou pescando. Estou esperando. Esperando meu pai voltar. Sei que ele vai voltar. Um dia. Talvez hoje. Talvez nunca. Mas eu espero. O mar me devolveu muitas coisas. Me devolveu conchas, me devolveu estrelas do mar, me devolveu restos de navios. Nunca me devolveu meu pai. Mas eu espero. Toda noite. No mesmo lugar. Olhando o mar. Sentindo o cheiro do mar. Sentindo o cheiro do meu pai. Ele está lá. Em algum lugar. No fundo do mar. Ou no céu. Não importa. Eu espero.