O interessante é que não faço a menor ideia de quem seja o criador do @leitorbolado. É um perfil anônimo do Twitter que se dedica a comentar a crítica literária contemporânea no Brasil. Pelo que vejo no perfil, a pessoa está conectada de alguma forma com o mercado do livro. Tem ali uma presença curiosa e fala de assuntos que geram um debate enorme, tipo as polêmicas sobre escrita criativa, os processos de escrita dos escritores profissionais, a questão do autor falecido receber ghost writers, o sumiço de escritores... E aí a thread que li hoje: sobre a efemeridade do conteúdo textual na internet.
Não sei quem é. Mas me peguei pensando: se um dia esse perfil acabar, se um dia a conta for deletada ou a pessoa simplesmente decidir parar, aquele texto vai ficar órfão? O Twitter permite baixar os dados, mas o contexto importa. A thread é um negócio frágil. Um tuíte solto sem a thread é um osso. Sem a conversa, sem o fio, aquilo vira um esqueleto. E aí me veio a imagem da vala comum.
É isso: a internet é uma máquina de produzir valas comuns. Você publica, se engaja, recebe respostas, e depois tudo some. Desde a morte do Orkut, que até hoje sinto falta de comunidades como a "História e Literatura" e as "Resenhas do Povo"... Mas não é só nostalgia. É a sensação de estar enterrando viva a produção contemporânea. A literatura marginal, os zines, os blogs literários que brotavam em toda esquina nos anos 2000 e hoje estão soterrados.
O Leitor Bolado me fez lembrar disso: como a escrita na internet está virando um buraco. Você cava, cava, cava. E no fundo não tem um acervo. Tem uma vala.
A escrita é o que sobra. O que a gente escreve é o que fica. Mas fica de verdade? Para quem? Até quando?
— Aline Bischoff