Há dias em que o silêncio pesa mais do que qualquer grito. Mas há também dias em que o grito é a única forma de existir, afirmar que a vida negra importa. Em um país construído sobre a herança da escravidão, o racismo estrutural ainda dita quem vive e quem morre. #vidasnegrasimportam não é apenas uma hashtag; é uma afirmação de existência, uma recusa ao apagamento.
Lembro de quando li pela primeira vez o diário de Carolina Maria de Jesus. Em "Quarto de Despejo", a vida negra pulsava com uma força que o asfalto da cidade tentava esmagar. Carolina escrevia para não enlouquecer, mas também para denunciar. Sua escrita é um testemunho de que a literatura pode ser trincheira.
Hoje, o movimento Black Lives Matter ecoa no Brasil e no mundo. Nomes como Marielle Franco, Dandara dos Santos, João Pedro, tantos outros, nos lembram que a luta ainda não terminou. A cada corpo negro tombado, a história sangra. Mas também sangra a resistência.
Escrever sobre isso é um ato político. É ocupar um espaço que historicamente nos foi negado. A literatura negra brasileira — de Lima Barreto a Conceição Evaristo, de Elisa Lucinda a Cidinha da Silva — nos ensina que a caneta também é uma arma. E que a palavra pode libertar.
Talvez seja necessário revisitar o conceito de democracia racial. O mito da democracia racial brasileira sempre serviu para mascarar as desigualdades. A verdade é que o racismo no Brasil é cruel e silencioso, muitas vezes disfarçado de "piada" ou "brincadeira". Mas as estatísticas são implacáveis: a maioria da população carcerária é negra; a maioria dos jovens assassinados é negra; a população negra tem menos acesso à saúde, educação e trabalho digno. #vidasnegrasimportam é também um chamado à ação.
É preciso ocupar as universidades, os espaços de poder, a mídia. A representatividade importa. Quando uma criança negra vê uma heroína negra na televisão, ela sonha mais alto. Quando a escola ensina a história da África e da diáspora negra com o respeito que merece, formamos cidadãos conscientes.
Neste texto, não quero oferecer respostas prontas. Quero apenas somar minha voz a esse coro que clama por justiça. Que as vidas negras importem não apenas nos discursos, mas nas políticas públicas, no respeito, no afeto. Que o Brasil pare de virar o rosto para sua própria história.
#vidasnegrasimportam todos os dias.